Nota mental, parte cento e setenta e nove

O facto de as crianças de um ano não serem capazes de imaginar o futuro é, ao mesmo tempo, o seu conforto e a sua angústia. Se, por um lado, a absoluta ignorância acerca daquilo que lhes irá acontecer é uma ausência feita de protecção, por outro lado, perante uma despedida, as crianças de um ano sofrem sem palavras porque não conseguem conceber o regresso da pessoa que parte. Podemos tentar explicar-lhes, dizer «Volta já daqui a duas horas», «Volta amanhã», «Volta na próxima segunda-feira». Podemos tentar muitas coisas sem sentido. Para as crianças de um ano, as despedidas são sempre definitivas.


in Abraço de José Luís Peixoto.



Penso: há pessoas que têm uma dificuldade tremenda em entender o significado da palavra fim. Mesmo naqueles casos em que o termo era desejado e tudo seria desculpa para o arrastar para a cena principal. Ficam presas à sua criança interior de um ano e negam-se a crescer e a aceitar o futuro que, no fundo, foi uma opção apetecida. Chega a ser doentio esperar e actuar em jeito de pôr termo a algo e, depois, além de não se ser capaz de viver com isso, invoca-se este mundo e o outro de forma a importunar quem, do outro lado, conseguiu seguir em frente. Vive-se com o remorso de quem se rejeitou e que, agora, pertencendo à vida de outra pessoa parece ser alguém diferente, alguém deveras notável. Da minha parte, sinto pena, pena e comiseração por aqueles que, no fundo, nunca irão ser capazes de projectar e construir uma vida própria.

3 comentários:

  1. Conheço uma pessoa assim, que ainda por cima se diz muito independente. E continua, dia após dia, ano após ano, a negar o fim de algo que nem sequer chegou a começar. É mesmo triste, sinto pena.

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  2. o teu vício de ler o Peixoto.Tenho de experimentar :)

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